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Danila Maia
Autoconhecimento

Como aumentar a autoestima quando a frase no espelho falhou

Por Danila Maia

Em resumo

Como aumentar a autoestima de verdade: por que as dicas e frases prontas nunca seguraram e os três movimentos que mudam o jeito como você se trata.

Mulher de cardigã claro refletida no espelho redondo do banheiro, com a mão no rosto e expressão pensativa, em uma manhã de luz natural

Como aumentar a autoestima de verdade? Não é com frase positiva no espelho. É com três mudanças concretas: o jeito como você se trata quando erra, os limites que você sustenta mesmo sentindo culpa e a saída da comparação diária. Repetir frases em que você não acredita pode até piorar. Autoestima se constrói por experiência, não por convencimento.

Tem uma frase colada no espelho do seu banheiro. Você mesma colou, numa segunda-feira de fé. “Eu mereço coisas boas.” Ela ainda está lá. Você só não a lê mais. Virou paisagem, junto com a promessa que veio com ela.

Eu já expliquei o que é autoestima de verdade e de onde ela vem no guia completo. Este texto é sobre a parte que fica de fora de quase toda conversa: o como. E ele não vai ser mais uma lista. Vão ser três frentes, o mecanismo de cada uma e o que fazer quando falhar. Porque vai acontecer, e isso também faz parte.

Por que as dicas que você já tentou não funcionaram

Primeiro, uma coisa precisa ser dita: você não falhou com as dicas. As dicas é que falharam com você.

Você já leu as 13 dicas. Já salvou o post. Já começou a semana decidida. Até a resposta automática que o Google mostra hoje, quando alguém pesquisa essa pergunta, termina perguntando se você “já tentou alguma prática dessas antes”. O próprio buscador assume que todo mundo já tentou.

Eu fui contar. Somando só o que os títulos das páginas do topo do Google prometem para essa mesma pergunta, são 63 dicas.

Gráfico de barras horizontais mostrando quantas dicas cada página do topo do Google promete no título para a busca como aumentar a autoestima: CNN Brasil 13, Medprev 10, SBIE 10, Droga Raia 9, Psitto 8, psicologo.com.br 8 e Dr. Fernando Rodrigues 5, somando 63 dicas.

Sessenta e três dicas disponíveis, de graça, na tela de qualquer celular. Se dica resolvesse, essa busca já teria desaparecido.

E existe pesquisa mostrando por quê. Pesquisadores pediram que pessoas repetissem para si mesmas “eu sou uma pessoa digna de amor”. Quem tinha autoestima baixa terminou o exercício se sentindo pior do que quem não repetiu nada (Wood, Perunovic e Lee, 2009). A frase positiva falha justamente com quem mais precisaria dela.

O mecanismo é simples: frase em que você não acredita não convence, confronta. A sua cabeça não engole calada; ela responde com a lista completa de provas contrárias. Você sai do espelho com a distância entre a frase e o que você sente ainda mais visível.

Se convencimento não funciona, o que funciona é experiência. Fazer diferente antes de acreditar diferente, em doses pequenas o bastante para caber num dia normal. É isso que as três frentes deste texto organizam.

Já escutei muitas versões da mesma frase: “eu sei o que eu deveria fazer, eu só não faço”. Saber nunca foi o problema.

O que aumenta a autoestima de verdade: parar de derrubá-la primeiro

Antes de adicionar qualquer prática nova, interrompa a que já existe e derruba: o tribunal interno que abre sessão a cada erro.

Duas da tarde. Você manda um e-mail e esquece o anexo. Um deslize de dez segundos, resolvido com um “segue agora”. Mas a voz interna abre o processo: “só você mesma”. E o resto do dia inteiro é narrado no tom da acusação.

Autoestima não é um músculo que você infla com o exercício certo. É mais parecida com uma conta em que você deposita e saca. As dicas mandam depositar: elogio no espelho, banho demorado, caderno de gratidão. Ninguém repara que a autocrítica saca todo dia, em quantia maior. Não existe depósito que sustente esse ritmo de retirada.

Por isso o método aqui tem três frentes, e nenhuma delas é “pense positivo”:

  • Mude como você se trata quando erra. É onde a autoestima é derrubada diariamente.
  • Sustente limites mesmo com a culpa. É onde ela deixa de depender de aprovação.
  • Saia da comparação diária. É onde ela para de ser medida com régua alheia.

Cada frente tem uma seção abaixo, com o como e com o que fazer quando o desconforto chegar. Porque ele chega, e ninguém costuma avisar disso.

Frente 1: mude o que você faz quando erra

Esta é a frente que muda o placar mais rápido, porque é onde o saque acontece todo dia. E o caminho tem dois movimentos, nessa ordem: primeiro enxergar o tribunal funcionando, depois trocar a voz da acusação pela voz que você já usa com quem ama.

Reconheça o tribunal

O primeiro passo não pede mudança nenhuma. Pede só atenção: reparar como você fala com você quando erra, e em que tom. Uma semana só reparando já rende material. A maioria das mulheres que faz isso descobre que usa consigo um tom que não usaria nem com uma desconhecida na fila do mercado.

A pergunta da amiga

Aí entra a ferramenta central desta frente. No próximo erro, uma pergunta: o que eu diria para uma amiga querida que tivesse feito exatamente isso? E então dizer isso para você. Mesmo sem acreditar ainda. Principalmente sem acreditar ainda.

Repare que isso não é frase pronta. É a frase que você já usa, de graça, com quem você ama. E a diferença para a afirmação positiva é inteira: a frase da amiga parte do erro real, não da negação dele. Você não repete “eu sou incrível”. Você diz “foi um anexo, qualquer pessoa cansada esquece”. Uma tenta apagar o que aconteceu. A outra acolhe quem aconteceu.

Esse jeito de se tratar tem nome nas pesquisas, autocompaixão, e tem prova de que funciona. Num ensaio clínico, pessoas que treinaram isso durante oito semanas melhoraram o bem-estar de forma mensurável, e os ganhos continuavam lá um ano depois (Neff e Germer, 2013). É o contraste exato com a frase do espelho: isso se sustenta no tempo.

Errar sem abrir processo é amor-próprio na prática

Se você já viu listas de pilares do amor-próprio, todas elas se resumem, no dia a dia, a isto: o que você faz com você quando as coisas dão errado. É o amor-próprio na prática, e ele não mora na banheira nem na vela aromática.

O que eu vejo mudar primeiro não é a pessoa se elogiar mais. É ela se atacar menos.

Frente 2: sustente um limite mesmo com culpa

A colega pergunta se você pode assumir mais essa. A sua boca responde “claro!” antes de você decidir qualquer coisa. E você passa a tarde com raiva. Não dela. De você.

“Aprenda a dizer não” aparece em toda lista, sempre sem a parte mais importante: por que dizer não parece impossível para você. Se o seu valor sempre foi medido pelo quanto você ajuda, cada não soa como perder valor. Já escrevi sobre por que dizer não é tão difícil para você; aqui, o que importa é o passo executável.

Comece pelo limite mais barato

Não é largar tudo nem confrontar ninguém. É escolher um pedido pequeno da semana e responder “deixa eu ver e te falo” no lugar do sim automático. Só isso. Você não disse não; você ganhou o intervalo entre o pedido e a resposta. É nesse intervalo que a decisão volta a ser sua.

A culpa vem, e ela não é sinal de que você errou

Um dia o não sai. “Não vou conseguir.” E aí começa a parte que ninguém te contou: você passa o resto do dia ensaiando justificativas, com o telefone na mão, quase voltando atrás.

Essa culpa não é prova de egoísmo. É abstinência de um padrão antigo. Você passou décadas comprando paz com a palavra sim, e o corpo estranha quando o pagamento não vem. Se a culpa apareceu, é porque você fez diferente. Não porque fez errado. Ela passa, e passa mais rápido a cada vez.

Receber também é limite

“Deixa que eu levo.” “Não precisa.” “Eu resolvo.” Se dar é confortável e receber constrange, o treino complementar é aceitar uma ajuda sem devolver na hora e sem compensar depois. Sustentar o desconforto de ficar, por dez minutos, do lado de quem recebe.

Frente 3: saia da comparação, de verdade

Onze da noite. A prima na praia. A colega promovida. A casa impecável de uma desconhecida que o algoritmo escolheu para você. Você fecha o aplicativo se sentindo dois degraus abaixo de todo mundo, e ainda por cima culpada pelo tempo perdido.

“Não se compare” é uma ordem impossível, e quem repete essa dica nunca explica o como. Comparação é automática enquanto a vitrine estiver aberta. O que está ao seu alcance não é o impulso; é a exposição.

Também aqui existe experimento em vez de opinião. Estudantes que limitaram as redes sociais a cerca de meia hora por dia, durante três semanas, terminaram com menos solidão e menos tristeza, numa queda mensurável (Hunt e colegas, 2018). Não é largar o celular nem sair das redes. É fechar a vitrine mais cedo.

Abajur aceso na mesa de cabeceira ao lado da cama, com livro aberto e caderno sobre o edredom, à noite, sem nenhum celular por perto.

E, quando a vontade de se medir vier, existe uma comparação com dado real: você de hoje com você de seis meses atrás. É a única régua que mede a sua vida inteira, e não o recorte editado da vida dos outros.

Uma palavra sobre o peso disso: a vitrine cobra da mulher tudo ao mesmo tempo, corpo, casa, filhos, carreira. Se a comparação te derruba mais do que parece derrubar quem está ao seu redor, não é fraqueza sua. É mais um motivo para fechar a vitrine, não para tentar dar conta dela.

Por que dura três dias e volta (e o que fazer com isso)

Janeiro. “Este ano vou cuidar mais de mim.” Academia paga, curso começado, caderno bonito com a primeira página caprichada. Em março, o caderno está na gaveta, e tudo aquilo virou mais uma prova no processo que você move contra você.

Esse ciclo tem explicação, e ela não é falta de força de vontade. Pesquisadores mostraram que transformar a autoestima em meta a ser perseguida cobra caro: a pessoa passa a evitar tudo em que pode falhar, fica na defensiva, e cada dia ruim vira prova de fracasso (Crocker e Park, 2004). Traduzindo: “aumentar a autoestima” tratada como projeto com meta e prazo vira só autocobrança com nome bonito.

E existe uma camada mais funda, a única pincelada de psicanálise que este texto vai fazer. O jeito como você se trata hoje foi aprendido cedo e repetido por tantos anos que virou reflexo. E reflexo não obedece a decisão. A frase nova tem três dias de vida; a voz antiga tem décadas de treino. Por isso volta. Mudar isso é menos parecido com decidir e mais parecido com desaprender: devagar, com prática e, de preferência, com alguém escutando junto de onde essa voz veio.

O que sustenta e fortalece a autoestima, então, não é intensidade. É tamanho. Promessas pequenas e cumpridas valem mais do que planos grandes e abandonados: uma coisa por semana, tão pequena que seja quase impossível falhar. Autoestima cresce quando você vira, aos poucos, alguém em quem você mesma confia.

E quando parecer que voltou tudo, voltar não é recomeçar do zero. É a parte do caminho que ninguém coloca na lista. Se você reconhece o padrão de largar justamente o que estava funcionando, escrevi sobre por que você abandona o que começou a funcionar. E se o que não desliga é a exigência, vale entender a cobrança que nunca desliga.

Quando alguém me diz que está tentando melhorar a autoestima, eu costumo perguntar primeiro o que ela faz quando erra. A resposta quase sempre dói mais do que a pergunta.

Quando não é para fazer sozinha

Uma revisão brasileira de enfermagem separa dois tipos de baixa autoestima: a que caiu por um evento, um término, uma demissão, uma traição, e a que está baixa desde sempre (Revista Brasileira de Enfermagem, 2020). É a diferença entre recuperar a autoestima que um acontecimento derrubou e construir uma que nunca teve chão firme.

A primeira costuma se reerguer com tempo, com rede de apoio e com práticas como as deste texto. A segunda tem raiz. E raiz não se alcança com dica: se alcança com escuta.

Na psicanálise, o trabalho não é receber uma lista nova. É descobrir de onde veio a voz que te derruba e do que o seu valor ficou refém. Não prometo prazo e não falo em cura, porque baixa autoestima não é doença. O que muda, quando muda, é outra coisa: a pessoa para de precisar provar para existir.

Um cuidado que não pode faltar: se a tristeza é constante, se nada dá prazer, se o sono e o apetite mudaram, se você se afastou de todo mundo ou se aparecem pensamentos que assustam, isso pede avaliação médica ou psiquiátrica, não um plano de autoestima. Às vezes o que parece baixa autoestima é depressão ou ansiedade pedindo um cuidado próprio. E, se a dor estiver grande demais agora, o CVV atende pelo 188, 24 horas, de graça e em sigilo.

Se a dúvida for sobre o momento certo de procurar ajuda, escrevi também sobre quando buscar um psicanalista.

Se em algum momento fizer sentido olhar para isso com companhia, eu atendo online, para todo o Brasil. Costuma começar com uma conversa, sem compromisso. E você não precisa chegar sabendo explicar o que sente: chegar já é o começo.

Enquanto isso, leva daqui uma coisa só. Aumentar a autoestima não é passar a acreditar na frase do espelho. É errar o anexo das duas da tarde e não abrir processo. No dia em que o erro deixar de virar julgamento, você não vai precisar de frase nenhuma.

Perguntas frequentes

Quais são os 4 pilares da autoestima?

Nas abordagens mais citadas: autoaceitação, autoconfiança, competência social e rede de apoio. Algumas listas chegam a sete, somando itens como propósito, limites e autocuidado. O número importa menos do que uma coisa: nenhum pilar fica de pé enquanto a autocrítica derruba a estrutura todos os dias. Antes de construir pilar novo, interrompa a demolição diária.

O que derruba a autoestima?

Eventos estressantes, críticas repetidas e comparação constante estão entre os principais fatores apontados pela pesquisa. No dia a dia, porém, o que mais derruba é silencioso: o jeito como você se trata quando erra. A autocrítica funciona como um saque diário na conta do seu valor, maior do que qualquer depósito que as dicas mandam fazer.

Quais são 3 sintomas de baixa autoestima?

Autocrítica que não dá trégua, mesmo em erros pequenos; dificuldade de receber elogio, ajuda ou presente sem minimizar ou devolver na hora; e o hábito de adiar o que é seu para caber o que é dos outros. Quase nunca aparece como a frase "não me acho suficiente". Aparece disfarçada de exigência, de gentileza e de rotina.

Como recuperar a autoestima e a autoconfiança depois de um término ou uma demissão?

A autoestima que caiu por um evento recente costuma se reerguer com tempo, rede de apoio e prática diária: tratar-se no erro como trataria uma amiga, sustentar limites, reduzir a comparação. A autoconfiança volta junto, por experiência. É diferente da autoestima baixa desde sempre, que tem raiz mais antiga e costuma pedir escuta profissional além das práticas.

Como aumentar a autoestima feminina?

O caminho é o mesmo, com uma diferença honesta: para mulheres, a pressão é maior e mais simultânea, porque corpo, casa, filhos e carreira são cobrados ao mesmo tempo. Por isso, as frentes que mais mudam o jogo costumam ser os limites, que devolvem espaço, e a saída da comparação diária, que fecha a vitrine que cobra em dobro.

TDAH afeta a autoestima?

São coisas diferentes que podem andar juntas. Anos ouvindo críticas por "distração" ou "preguiça" desgastam a autoestima de qualquer pessoa, e só uma avaliação profissional consegue diferenciar o que é funcionamento do cérebro e o que é a marca deixada pelas críticas. Se você suspeita de TDAH, procure essa avaliação. As duas coisas merecem cuidado, cada uma o seu.

Talvez o primeiro passo seja só uma conversa.

Atendimento online em todo o Brasil e presencial em Indaiatuba/SP. 1ª sessão a partir de R$150.

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