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Danila Maia
Autoconhecimento

Amor próprio: o que é na prática (além das frases bonitas)

Por Danila Maia

Em resumo

Amor próprio não é frase de Instagram. É dizer não, descansar sem culpa e ocupar espaço. Entenda o que ele é no dia a dia de quem cuida de todo mundo.

Mulher por volta dos 50 anos sentada na poltrona da sala de casa, sob luz natural suave, com o olhar baixo e uma expressão serena, num momento tranquilo que é só dela

Amor próprio é tratar as suas próprias necessidades como se elas contassem. Na prática, ele aparece em três coisas nada bonitas de fazer: dizer não sem se justificar, descansar sem sentir que está devendo alguma coisa, e ocupar espaço sem pedir licença. Não é um sentimento que chega. É uma decisão repetida.

Repare numa cena. Você serve todo mundo. Senta por último, com o pedaço que sobrou. Levanta no meio da própria refeição porque alguém pediu água, e come o resto em pé, encostada na pia. Ninguém te pediu para fazer assim. Você nem lembra de ter decidido.

Você provavelmente já leu cinquenta frases sobre amor próprio. E nenhuma delas mudou nada, porque o problema nunca foi de informação.

Este texto é sobre o que amor próprio é de verdade no dia de quem cuida de todo mundo. Não o que ele deveria ser.

O que é amor próprio (e o que ele não é)

Amor próprio é a relação que você tem com você. Não o que você pensa sobre você, o que você faz com você. É a diferença entre saber que você está exausta e fazer alguma coisa com essa informação.

Ele não vive em adjetivo, vive em verbo. Não é “se valorizar”, é escolher, num sábado de manhã com o telefone tocando, atender depois. Não é “se respeitar”, é falar o que você pensa numa mesa em que todo mundo já falou.

O que amor próprio não é

Não é achar que você é maravilhosa. Isso é outra coisa, e é bem mais frágil.

Não é autocuidado de fim de semana. Máscara facial no domingo à noite não desfaz uma semana em que você não parou.

Não é egoísmo. Essa é a objeção que aparece primeiro, e ela tem endereço: você aprendeu que cuidar de si tira alguma coisa dos outros. Não tira. O que tira dos outros é você chegar no fim do ano oca, funcionando no automático, presente no corpo e ausente em tudo o mais.

E não é se afastar de todo mundo. Amor próprio não é frieza. É poder estar perto sem sumir.

Tem uma coisa que pesquisadores descrevem há décadas e que ajuda a entender por que isso é tão difícil para você especificamente: a gente aposta o próprio valor em algum lugar. Umas pessoas apostam na aparência, outras no desempenho, outras na aprovação alheia. E, dentro daquele lugar, o valor sobe e desce conforme o que acontece (Crocker e Wolfe, 2001). Você apostou em dar conta. Por isso, no dia em que você não dá, não é uma tarefa que falha. É você.

Sair disso passa por entender o que é seu de verdade, e não por decorar mais uma definição.

Como o amor próprio aparece no dia a dia de quem cuida de todo mundo

Ele quase nunca aparece do jeito que a internet mostra. Não tem luz bonita, não tem xícara fumegante, não tem trilha sonora. E a falta de amor próprio também não chega como tristeza: chega como excesso de responsabilidade. Na prática, ele aparece assim.

Dizer não (e aguentar a cara que a pessoa faz)

O telefone toca no sábado de manhã. É o pedido de sempre. Você já está cansada, já tinha planos, e escuta a própria voz dizendo “claro, sem problema”. Desliga e sente raiva. Da pessoa não. De você.

A parte difícil nunca foi a palavra “não”. São os três segundos de silêncio depois dela. É a cara que a outra pessoa faz. E é a culpa que vem no carro, no caminho de volta, montando um argumento inteiro para justificar uma decisão que não precisava de justificativa nenhuma.

Se isso te derruba toda vez, não é firmeza que está faltando. É que dizer não parece te transformar numa pessoa ruim, e ninguém aguenta ser uma pessoa ruim por muito tempo.

Descansar sem sentir que está devendo

Sábado à tarde. Você senta no sofá. Consegue ficar oito minutos. No nono, levanta e vai dobrar uma roupa que podia esperar até segunda.

Não é que você não queira descansar. É que ficar parada dá uma coisa esquisita no peito, uma aflição fina, como se cada minuto de descanso estivesse virando dívida. É mais confortável trabalhar do que sentir aquilo.

Muita mulher só descansa quando adoece. A gripe é o único atestado que a culpa aceita.

Ocupar espaço

Almoço de família. Todo mundo opinando alto. Você tem opinião, tem opinião boa, e engole. Depois, no carro, ensaia na cabeça o que teria dito, com a frase já pronta e o timing perfeito. Ocupar espaço nunca pareceu uma coisa para você.

Outra cena, no mesmo dia. Você lembra do shampoo do seu filho, do remédio do seu marido, do queijo que a sua mãe gosta. Chega em casa, desempacota tudo e percebe que esqueceu a única coisa que era sua. De novo.

Ocupar espaço é isso: caber na lista. Falar sem pedir licença. Pedir sem explicar por que está pedindo.

Saber responder o que você quer

Alguém pergunta: “e você, o que você quer?”. E dá branco.

Não é modéstia. Não é generosidade. É que faz tanto tempo que ninguém pergunta, e você mesma parou de perguntar, que a resposta simplesmente não está mais lá.

E aí eu faço essa pergunta, uma pergunta simples, e é sempre nela que a pessoa trava.

Por que é tão difícil (a culpa é o obstáculo, não a falta de vontade)

Você já sabe tudo isso. Não é informação que está faltando.

O que trava é outra coisa. Quando você finalmente se coloca em primeiro lugar, o que aparece não é alívio. É a sensação de estar traindo alguém. Você diz não e fica com um mal-estar que não combina com o tamanho do que aconteceu. Senta para descansar e sente que está fazendo algo errado. Essa é a culpa, e ela é o obstáculo real. Não a preguiça, não a falta de vontade, não a falta de tempo.

E ela não veio do nada. Existe um contexto que quase nunca é dito em voz alta.

Gráfico de barras horizontais mostrando que, no Brasil em 2019, mulheres dedicavam 21,4 horas por semana a afazeres domésticos e ao cuidado de pessoas, contra 11,0 horas dos homens, uma diferença de 10,4 horas semanais.

Não é impressão sua, e não é falta de organização. No Brasil, mulheres dedicam 21,4 horas por semana a afazeres domésticos e ao cuidado de pessoas. Homens, 11,0 horas (IBGE, PNAD Contínua, dados de 2019). São quase dez horas e meia a mais, todas as semanas, num trabalho que ninguém contabiliza e que não aparece em lugar nenhum. E a diferença não vem encolhendo: era de 9,9 horas em 2016 e passou para 10,4 em 2019.

Você não está cansada porque é frágil. Você está cansada porque está trabalhando quase um dia inteiro a mais por semana do que enxerga. Quando esse cansaço vira o clima permanente da sua vida, ele já é esse cansaço que dormir não resolve.

Onde você aprendeu a ficar por último

Ninguém acorda um dia e decide ficar por último. Isso foi aprendido, muito cedo, e quase sempre com elogio.

A menina que não dava trabalho. A que dividia o brinquedo antes de pedirem. A que percebia que a mãe estava triste antes da mãe perceber. Cada elogio desses foi ficando guardado, e em algum momento deixou de ser elogio e virou contrato. Ser boa passou a significar vir depois.

Por isso, hoje, quando você tenta se colocar em primeiro lugar, o que aparece não é liberdade. É a sensação de estar quebrando um acordo antigo que você nem lembra de ter assinado. É contra isso que você esbarra, e não contra a sua própria vontade.

Tem ainda uma coisa que vale dizer com honestidade. Reunindo dezenas de estudos, pesquisadores viram que mulheres tendem a ser um pouco mais duras consigo mesmas do que homens (Yarnell e colegas, 2015). A diferença é pequena, mas aparece de novo e de novo, em pesquisa atrás de pesquisa. E os próprios autores levantam o motivo mais provável: não é natureza, é o que se ensina a cada uma. Você não é mais fraca. Você foi treinada a ser boa com todo mundo, menos com você.

Quase nenhuma mulher chega aqui dizendo que falta amor próprio. Chega dizendo que está cansada e não sabe do quê. E a régua que você usa só com você costuma aparecer na segunda ou na terceira conversa, quase sempre por acidente.

Amor próprio e autoestima são a mesma coisa?

Não. Autoestima é o quanto você se acha boa, e ela sobe e desce conforme o dia, o elogio, o resultado da reunião, o número na balança. Amor próprio é como você se trata quando o dia foi ruim e não teve elogio nenhum. Um é avaliação. O outro é relação.

Isso não é jogo de palavras. Num estudo com mais de duas mil pessoas, pesquisadores viram que tratar-se com gentileza sustenta um senso de valor bem mais estável e bem menos dependente de ter ido bem em alguma coisa do que a autoestima (Neff e Vonk, 2009). Autoestima alta, sozinha, não protege de comparação, de autocobrança nem de raiva contra si mesma.

Por isso trabalhar autoestima com elogio não funciona por muito tempo. Elogio depende de alguém dar.

Se o que pesa mais em você for a sensação de não se achar boa o bastante, o caminho começa em outro ponto, e vale olhar com calma.

Como ter amor próprio: por onde começar (movimentos pequenos, não dicas)

Não existe interruptor. E você provavelmente já tentou se convencer a se priorizar, o que só virou mais uma coisa que você está fazendo errado.

Então, em vez de lista de tarefas, quatro convites. Cada um vem com o desconforto que ele gera, porque o desconforto vai vir de qualquer jeito e é melhor você já esperar por ele.

Mulher sentada à mesa posta da própria casa, com uma xícara nas mãos e a luz da manhã entrando pela janela, num café tomado sentada e sem pressa

Um não pequeno por semana. Não comece pelo maior. Comece por um em que a consequência é pequena: o grupo do condomínio, o favor que dá para outra pessoa fazer. E depois fique com a culpa sem desfazer o não. Ela passa em uns vinte minutos. O não é que fica.

Vinte minutos sem função. Não é autocuidado, não é banho relaxante, não é podcast produtivo. É sentar. O objetivo não é gostar, é aguentar a aflição sem levantar. Nas primeiras vezes vai parecer perda de tempo. É exatamente esse o ponto.

Uma frase em voz alta na mesa. Dez segundos de espaço, uma vez. Sem preparar em casa, sem pedir licença antes. Só a frase.

Perguntar a si mesma o que você quer, e aceitar não saber. Não saber já é uma resposta, e é uma resposta honesta. A outra chega depois, com a pergunta repetida muitas vezes.

Uma observação necessária e honesta. Se o desânimo, a falta de vontade e a sensação de não valer nada estiverem presentes na maior parte dos dias, isso pede acompanhamento profissional, e não um artigo. O CVV atende pelo 188, de graça, em sigilo, 24 horas por dia. E se houver violência de qualquer tipo dentro de casa, ligue 180: esse não é um problema de amor próprio, é uma questão de segurança.

O que muda ao longo das sessões não é a pessoa passar a se achar incrível. É ela parar de precisar merecer. Isso não é temperamento, é algo que foi aprendido, e por isso pode ser reaprendido. Devagar, e não sozinha.

Sou psicanalista e atendo online para todo o Brasil. A porta de entrada costuma ser só uma conversa, sem compromisso.

Talvez você não precise de mais uma frase sobre se amar. Talvez você precise de um lugar onde possa entender por que ficar por último virou o normal, e o que acontece com você quando esse lugar começa a mudar.

Você não vai acordar amanhã se amando. Mas dá para começar a ocupar um pouco mais de espaço na própria vida. Começa pequeno, começa incômodo, e começa hoje, com uma coisa que é só sua.

Perguntas frequentes

O que é ter amor próprio?

Ter amor próprio é tratar as suas próprias necessidades como se elas contassem tanto quanto as dos outros. No dia a dia, aparece em três movimentos concretos: dizer não sem se justificar, descansar sem sentir que está devendo alguma coisa e ocupar espaço sem pedir licença. Não é um sentimento, é uma decisão repetida.

Quais são os 7 pilares do amor próprio?

Não existe uma lista oficial de sete pilares. Esse número é uma formatação de conteúdo, não um consenso. O que aparece de verdade na literatura séria são quatro bases: autoconhecimento (saber o que você sente), autoaceitação (não precisar ser perfeita), autorrespeito (não aceitar o que te machuca) e limite (conseguir dizer não).

Como curar a falta de amor próprio?

Falta de amor próprio não é doença, então não se cura. Ela se desfaz aos poucos, com movimentos pequenos e desconfortáveis: um não por semana, vinte minutos sem função, uma frase dita em voz alta. O que muda não é você passar a se achar incrível, é você parar de precisar merecer.

Como aprender a se amar e se valorizar?

Começando pelo comportamento, não pelo sentimento. Ninguém se convence a se amar. Você escolhe uma decisão pequena por semana, faz mesmo com a culpa aparecendo junto, e não desfaz a decisão por causa dela. A culpa dura uns vinte minutos. O respeito por si mesma vai ficando.

Quais são 5 sinais de baixa autoestima?

Os mais comuns: não conseguir receber um elogio sem corrigir quem elogiou, precisar da aprovação dos outros para se sentir em paz, comparar-se o tempo todo, tratar cada erro como prova de que você não presta e evitar pedir coisas para não incomodar ninguém.

Qual a diferença entre amor próprio e autoestima?

Autoestima é o quanto você se acha boa, e ela sobe e desce conforme o dia, o elogio, o resultado. Amor próprio é como você se trata quando o dia foi ruim e não teve elogio nenhum. Um é avaliação. O outro é relação. Por isso autoestima alta, sozinha, não segura ninguém.

Talvez o primeiro passo seja só uma conversa.

Atendimento online em todo o Brasil e presencial em Indaiatuba/SP. 1ª sessão a partir de R$150.

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