Como fazer terapia: por onde começar quando você nunca fez
Em resumo
Como fazer terapia pela primeira vez: como escolher o profissional, quanto custa, online ou presencial e o que falar na primeira sessão. Sem mistério.
Como fazer terapia: você escolhe um profissional (psicólogo, psicanalista ou psiquiatra), combina valor, formato e horário, e marca a primeira conversa, presencial ou online. Não precisa chegar com o problema organizado: conduzir é trabalho de quem atende. O passo mais difícil não é técnico. É aceitar que a sua dor merece uma hora por semana.
O contato está salvo no seu celular há três meses. A profissional que a sua amiga indicou, ou aquela que você viu falando de um jeito que parecia sobre você. A mensagem chegou a ser escrita: “Oi, tudo bem? Queria saber se você tem horário…”. Você leu, releu, apagou. Depois eu mando. O depois já dura três meses.
Este guia responde a parte prática inteira: quem procurar, quanto custa, online ou presencial, o que dizer na primeira conversa e como saber se está valendo. E, antes dela, a parte que nenhum guia menciona: o que trava não é a logística. É você achar que ainda não é hora, que ainda não é grave, que ainda não é sobre você.
O que trava (e por que não é falta de informação)
Onze da noite. Todo mundo dormiu. Você digita “como fazer terapia”, lê dois artigos, fecha as abas. Na semana seguinte, pesquisa de novo. O seu histórico de navegador sabe antes de você.
Se fosse falta de instrução, você já teria resolvido. Marcar horário você sabe fazer: você marca dentista, marca reunião, marca a consulta de todo mundo da casa. O que segura são três coisas, e nenhuma delas é técnica.
A primeira é a régua da gravidade. Você conhece gente com depressão séria, com crise de pânico. Perto disso, o seu cansaço parece frescura, e você cede a vez até no direito de sofrer. Só que não funciona assim: não precisa de um quadro grave para começar. Cansaço que descanso não resolve, vazio com a vida aparentemente certa, a sensação de ter se perdido de si: tudo isso é motivo suficiente. Se quiser conferir com calma, escrevi sobre os sinais de que chegou a hora de buscar ajuda.
A segunda é o dinheiro, que você gasta com todo mundo, menos com você. Daqui a pouco falamos de números de verdade.
A terceira é o medo da conversa: não saber o que dizer, dar branco, chorar na frente de uma estranha. Também tem uma seção só para isso.
E uma coisa precisa ser dita antes de qualquer passo a passo: você não é uma exceção defeituosa.
Segundo o levantamento Global Health Estimates da OMS, de 2017, o Brasil tem a maior prevalência de transtornos de ansiedade do mundo: 9,3% da população, contra uma média mundial de 3,6%. Se quase 1 em cada 10 brasileiros vive com ansiedade, a fila de quem “tem tudo para estar bem” e não está é longa.
Muita gente me escreve pedindo desculpa por “tomar meu tempo” antes mesmo da primeira conversa. Essa frase, sozinha, já diz muito sobre o lugar que essa mulher ocupa na própria vida.
Quem é quem: psicólogo, psicanalista, psiquiatra e “terapeuta”
No Brasil, quem atende em terapia se divide em três formações principais, mais uma palavra guarda-chuva que pede atenção. Entender a diferença evita frustração e evita cilada.
- Psicólogo: graduação em Psicologia e registro no CRP. Atende psicoterapia em várias abordagens (terapia cognitivo-comportamental, humanista e outras). O registro de qualquer psicólogo pode ser conferido no Cadastro Nacional de Psicólogos do CFP, que é público.
- Psiquiatra: médico, com CRM e especialização em psiquiatria. É quem diagnostica transtornos e prescreve medicação quando é preciso. Muitas vezes trabalha em dupla com quem faz a escuta semanal.
- Psicanalista: formação específica em psicanálise, que passa por análise pessoal, supervisão e anos de estudo. Não é psicólogo e não trata transtornos: trabalha a relação da pessoa com a própria história.
- “Terapeuta”: no Brasil, essa palavra não tem dono. Cabe gente séria e cabe curso de fim de semana. O critério prático: pergunte formação, supervisão e experiência, sem constrangimento. Profissional sério responde com gosto.
A transparência que eu te devo
Eu sou psicanalista. Isso significa que eu não sou psicóloga: não tenho CRP, que é o registro dos psicólogos, e não trato transtornos. A formação em psicanálise é outra: passa por anos de estudo, por supervisão e pela exigência de que o próprio analista faça análise, dentro de uma tradição centenária organizada no Brasil pela FEBRAPSI e reconhecida como ocupação na Classificação Brasileira de Ocupações (CBO 2515-50). Se você procura tratamento para um diagnóstico, o caminho é psicólogo ou psiquiatra, e eu digo isso sem rodeio. Se você procura um lugar para entender a sua história e a relação que você tem com você mesma, esse é o meu trabalho.
Escrevi com mais calma sobre a diferença entre psicanálise e psicologia e sobre o que é psicanálise, se você quiser conhecer os dois caminhos antes de escolher o seu.
E se eu tiver um diagnóstico?
Quadros como TDAH, transtorno de pânico ou uma depressão diagnosticada pedem psicólogo e psiquiatra. A análise pode caminhar junto, mas não substitui esse cuidado. Qualquer profissional que prometa substituí-lo não merece a sua confiança.
Como escolher o seu profissional (sem cair em cilada)
Escolha por vínculo e segurança, não por diploma na parede nem por número de seguidores.
Na prática, os caminhos são simples. Peça indicação a alguém em quem você confia. Observe profissionais que escrevem ou falam de um jeito que toca você: se um texto parece que foi escrito para você, isso já é informação, e provavelmente foi o que trouxe você até aqui. E trate a primeira conversa como um teste mútuo, sem obrigação nenhuma de continuar.
Existe pesquisa sustentando esse critério. Pesquisadores reuniram quase 300 estudos, com mais de 30 mil pessoas, e chegaram a uma conclusão consistente: o que mais prevê se a terapia vai ajudar não é a técnica que o profissional usa. É a qualidade da relação entre vocês dois (Flückiger e colegas, 2018). A consequência prática: se depois de algumas sessões você não sente confiança, o problema pode não ser você. Trocar é legítimo, e não é recomeçar do zero.
Quatro sinais de alerta, válidos para qualquer abordagem:
- Promessa de resultado rápido ou de cura. Trabalho sério não promete o que ninguém pode garantir.
- Quebra de sigilo: quem conta detalhes de outras pessoas atendidas vai contar de você também.
- Opinião pronta sobre a sua vida na primeira hora, tipo “larga esse casamento”.
- Constrangimento quando você pergunta formação ou valor.
O que eu mais vejo não é falta de vontade. É a mulher que marca médico para todo mundo da casa e não consegue marcar para ela. Ela acha horário para levar a mãe ao médico, para a reunião da escola, para o favor da amiga. Uma hora por semana para ela parece luxo. Não é luxo. É a primeira linha do cuidado de todo o resto.
Quanto custa fazer terapia (e os caminhos quando o valor não cabe)
Quase ninguém responde essa pergunta com número, então deixa eu tentar. Os valores variam muito por região e por profissional, e o que segue é referência prática, não tabela:
- Clínicas-escola de faculdades de Psicologia: atendimento gratuito ou por valor simbólico, feito por alunos do fim do curso, sempre com supervisão de professores.
- Plataformas online e políticas de valor social: faixas menores, muitas vezes entre 50 e 120 reais por sessão.
- Consultório particular: em geral entre 100 e 300 reais por sessão, podendo passar disso em capitais e com profissionais muito experientes.
- Psicanalistas costumam ter política de valor conversável, porque a tradição sempre considerou a realidade de quem procura. Perguntar o valor e dizer quanto cabe no seu orçamento não é vergonha: é parte da conversa.
Terapia gratuita existe, sim
Se agora o valor não cabe de jeito nenhum, os caminhos gratuitos são reais, e não são cuidado de segunda categoria. As clínicas-escola atendem com seriedade e acompanhamento. Pelo SUS, a porta de entrada é a UBS do seu bairro, que pode encaminhar para atendimento psicológico ou para um CAPS, os Centros de Atenção Psicossocial. E existem projetos sociais e coletivos de profissionais que atendem por valores mínimos. Começar por aí é começar.
A conta que você faz (e a que você não faz)
Escola, dentista das crianças, o conserto do carro, o presente da sogra. Tudo cabe na planilha. A sua sessão é a única linha que você corta sem nem pensar, “porque agora não dá”. Repare no critério: o corte nunca é sobre o valor. É sobre quem seria a beneficiária.
Um estudo global publicado na Lancet Psychiatry calculou que cada 1 investido em cuidar de depressão e ansiedade retorna 4 em saúde e capacidade de viver e trabalhar (Chisholm e colegas, 2016). Eu não vou te dizer para “investir em você”, porque essa frase chega gasta. Vou dizer só o que a conta mostra: essa é a única linha da planilha que devolve.
Online ou presencial: como decidir
Os dois funcionam. A escolha é de logística e de preferência, não de eficácia. Pesquisadores compararam atendimento online e presencial em 20 estudos diferentes e os resultados foram equivalentes (Carlbring e colegas, 2018). O que muda é a logística, não a profundidade.
O online pede pouco: um lugar com porta fechada por 50 minutos, um fone de ouvido e o combinado de que aquele horário é seu. Para quem cuida de todos, defender esse espaço dentro de casa já é parte do trabalho. Em troca, ele resolve o mapa: você pode ser atendida por alguém de outra cidade, sem trânsito, no intervalo possível do seu dia. Expliquei em detalhe como funciona a psicanálise online.
O presencial faz diferença para quem precisa sair de casa para conseguir se escutar, ou para quem não tem privacidade nenhuma em casa. Se toda porta da sua casa abre sem bater, talvez o caminho até o consultório seja o único momento da semana em que você fica sozinha. Isso também é informação.
A primeira sessão: o que falar quando você não sabe o que falar
Você já ensaiou essa cena. Imaginou como entrevista de emprego: e se der branco, e se eu chorar na frente de uma estranha, e se ela achar que eu estou inventando drama.
Pode desmontar o ensaio. Você não precisa preparar nada. A primeira conversa costuma ser o profissional explicando como funciona (sigilo, duração de 50 minutos, frequência semanal, valor) e perguntando o que trouxe você. Quase ninguém chega na primeira conversa sabendo o que dizer. E não precisa. Começar com “eu não sei nem por onde começar” já é começar.
Se ajudar, três frases reais que servem de porta de entrada:
- “Eu não sei explicar. Só sei que estou cansada de um jeito que descanso não resolve.”
- “Está tudo certo na minha vida e mesmo assim eu não estou bem.”
- “Eu cuido de todo mundo e não sei mais o que eu quero.”
Sobre chorar: pode. Sobre silêncio: também pode. Ninguém está cronometrando a sua eloquência.

E existe um motivo para a conversa em voz alta fazer o que pensar sozinha não faz. O pensamento roda em círculo: você já repassou essa história mil vezes dentro da cabeça e ela sempre termina no mesmo lugar. Quando você conta em voz alta para alguém que escuta de verdade, sem pressa e sem opinião pronta, a história ganha outra forma. Você se ouve dizendo coisas que não sabia que pensava. É por isso que terapia não é conselho: o trabalho não é receber uma resposta, é escutar a sua.
E sim, pode ser que você descubra coisas. Caixas fechadas: a mãe, o casamento, escolhas antigas. A suspeita de que, se começar a puxar o fio, alguma coisa vai ter que mudar. Essa suspeita costuma estar certa. Mas muda no seu tempo, com você no comando, e quase sempre na direção de uma vida que aperta menos.
Se você quiser chegar sabendo o que esperar, mostrei em outro artigo como é uma sessão de terapia por dentro.
Como saber se a terapia está funcionando (e quanto tempo leva)
Funciona quando, com o tempo, você começa a se escutar antes de decidir, a perceber padrões que antes só repetia e a se tratar com um pouco menos de dureza. Não é linha reta e não tem prazo universal.
Sinais realistas de que o trabalho está acontecendo:
- Você se pega pensando na conversa durante a semana.
- Situações que sempre se repetiram começam a ter nome.
- Você diz em sessão coisas que nunca tinha dito em voz alta.
- Aparecem escolhas onde antes só havia obrigação.
E o que não é sinal de falha: sair de uma sessão remexida, semanas em que “não tem assunto”, melhora que vai e volta. Isso é o processo, não um defeito dele.
Se o vínculo não se constrói depois de algumas sessões, lembra daquelas centenas de estudos sobre a relação terapêutica? Eles apontam para o mesmo lugar: trocar de profissional não é desistir do processo. É cuidar dele.
E uma expectativa honesta, porque você merece saber no que está entrando: terapia não é promessa de cura. É um lugar de entendimento. O que muda, e muda de verdade, é a relação que você tem com a própria história.
Um cuidado que não pode esperar o fim do texto: se existir sofrimento intenso, desesperança que não passa, alterações fortes de sono e apetite ou pensamentos que assustam, o primeiro passo é avaliação médica ou psiquiátrica, agora, não depois. E se a dor estiver grande demais neste momento, o CVV atende pelo 188, 24 horas, de graça e em sigilo.
”Dá para fazer terapia sozinha?”
Dá para se conhecer melhor sozinha. Não dá para fazer terapia sozinha.
Escrever, ler, observar os próprios padrões: tudo isso é aliado valioso, e eu mesma indico por onde começar o autoconhecimento por conta própria. Mas o efeito da terapia vem justamente de existir outra pessoa: alguém de fora do seu circuito, sem nada a ganhar com as suas escolhas, com escuta treinada para ouvir o que você diz sem perceber que diz. O diário guarda a sua versão da história. A escuta de fora devolve o que a sua versão deixa escapar.
E se o que adia é o custo, repito em uma linha: clínica-escola, UBS, CAPS. Caminho gratuito existe e vale.
Se depois deste guia você percebeu que o que procura não é tratamento para um diagnóstico, e sim um lugar para entender a sua história e a relação que você tem com você mesma, a psicanálise online pode ser esse lugar. Eu atendo online, para todo o Brasil, e a primeira conversa serve exatamente para isso: você sentir, sem compromisso, se faz sentido. Se preferir, pode começar me escrevendo por aqui.
E a mensagem que está guardada no seu celular há três meses? Ela já está escrita. Sempre esteve. O que este guia queria te dizer é uma coisa só: você não precisa de mais um motivo, de mais uma pesquisa às onze da noite, nem de uma dor mais grave que a sua. A sua dor, do tamanho que ela é, já merece a hora dela.
Perguntas frequentes
O que é preciso para fazer terapia?
Nada além de escolher um profissional e marcar uma primeira conversa. Não precisa de encaminhamento médico, não precisa de diagnóstico e não precisa estar mal "o suficiente". Cansaço que não passa, um vazio sem explicação ou a sensação de ter se perdido de si já são motivos legítimos. O resto, quem atende conduz com você.
Qual o primeiro passo para fazer terapia?
Mandar a mensagem que você vem adiando: pedir uma primeira conversa. Pode ser por indicação de alguém de confiança ou procurando um profissional cujo jeito de falar toca você. Nessa conversa você pergunta valor, formato e horário, e sente se existe acolhimento. A primeira sessão não é compromisso definitivo: é um teste mútuo.
Quanto custa 1h de terapia?
Varia muito por região e profissional. Como referência: clínicas-escola de faculdades atendem de graça ou por valor simbólico; plataformas online e políticas de valor social ficam em faixas menores; consultórios particulares costumam ir de cem a algumas centenas de reais. Também existem caminhos gratuitos reais, como o SUS, via UBS e CAPS.
O que falar na primeira vez na terapia?
Você não precisa preparar nada. A primeira conversa costuma começar com o profissional explicando sigilo e funcionamento, e perguntando o que trouxe você. Dizer "eu não sei nem por onde começar" é uma abertura válida e das mais comuns. Chorar pode, silêncio pode. Conduzir a conversa é trabalho de quem atende, não seu.
Quais são os 3 tipos principais de terapia?
Os três mais citados são a psicanálise, que trabalha a sua história e a relação que você tem com você mesma; a terapia cognitivo-comportamental, focada nos padrões de pensamento e comportamento do presente; e as abordagens humanistas, centradas na sua experiência. Nenhuma é superior às outras: o vínculo com o profissional pesa mais que a abordagem escolhida.
Como fazer uma terapia sozinho?
Não dá para fazer terapia sozinha, mas dá para se conhecer melhor sozinha. Escrever, ler e observar os próprios padrões ajudam muito. O que a terapia tem de único é a escuta de alguém de fora, sem nada a ganhar com as suas escolhas. Se o custo é a trava, clínicas-escola e o SUS são caminhos reais.
Talvez o primeiro passo seja só uma conversa.
Atendimento online em todo o Brasil e presencial em Indaiatuba/SP. 1ª sessão a partir de R$150.
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